Como um conflito entre sócios foi desescalado a tempo?

Por Emilia Valdera 5 Min de leitura

Os dois sócios de uma fabricante de componentes plásticos começaram a discordar sobre a expansão de uma linha de produção. Um deles queria investir de imediato, usando parte do caixa reservado para outras áreas. O outro achava o momento errado. A discordância, inicialmente pontual, foi ganhando um tom pessoal a cada nova conversa sobre o assunto.

Duas reuniões depois, os dois já não discutiam mais o investimento em si; discutiam decisões antigas, tomadas anos antes, trazidas de volta como munição para reforçar a própria posição. Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, observa que esse tipo de deslocamento, do problema atual para o histórico acumulado da relação, costuma ser o sinal mais claro de que um conflito começou a escalar.

O ponto em que a discordância virou disputa pessoal

O que começou como uma diferença de avaliação sobre risco financeiro passou a ser tratado, por ambos os lados, como uma questão de quem tinha mais compromisso com a empresa. Cada argumento técnico vinha acompanhado de uma insinuação sobre a postura do outro ao longo dos anos, o que tornava cada vez mais difícil discutir o investimento sem reabrir mágoas antigas.

Esse padrão é comum em sociedades de longa data: o conflito atual funciona como gatilho para ressentimentos que nunca foram tratados diretamente, e a discussão original perde espaço para uma disputa maior, mais difusa e mais difícil de resolver. Nenhum dos dois sócios percebeu, no momento, que estava deslocando o assunto; cada um continuava convencido de que a conversa ainda era sobre a linha de produção. Nesse ínterim, Haroldo Augusto Filho considera esse tipo de deslocamento silencioso mais perigoso do que uma discordância declarada, justamente porque ninguém percebe que está discutindo outra coisa.

O primeiro passo: separar o histórico da decisão atual

A virada começou quando os dois concordaram em tratar as duas questões separadamente, com um espaço reservado só para a decisão sobre a linha de produção, sem misturar histórico de mágoas na mesma conversa. O desgaste acumulado não desapareceu da relação entre os sócios, mas parou de contaminar uma decisão que, isolada, tinha critérios objetivos de avaliação.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Definir com clareza que ponto estava sendo decidido naquele momento específico reduziu bastante a tentação de usar cada frase como oportunidade para acertar contas antigas. Haroldo Augusto Filho nota que essa separação costuma ser mais difícil na prática do que parece no papel, porque exige que ambos os lados aceitem adiar, ainda que temporariamente, uma frustração que já vinha se acumulando havia tempo.

Como uma pausa estruturada mudou o tom da conversa?

Em vez de insistir numa reunião que já tinha esfriado o clima entre os dois, os sócios optaram por uma pausa de alguns dias, com o compromisso explícito de voltar ao assunto numa data marcada, e não simplesmente deixar a discussão morrer sem solução. Essa pausa estruturada, com data de retorno definida, costuma funcionar melhor do que um adiamento indefinido, porque evita que o conflito fique suspenso sem previsão de tratamento.

Quando voltaram a se falar, cada um chegou com uma proposta concreta de meio-termo, em vez de repetir a posição original. Haroldo Augusto Filho aponta que esse tipo de retorno já começa como negociação, e não como continuação da disputa anterior, justamente porque o tempo entre as reuniões deu espaço para que a reação inicial perdesse força.

O que esse tipo de caso costuma ensinar sobre desescalada?

Casos como esse mostram que desescalar um conflito raramente depende de convencer alguém de que está errado. Depende, na maioria das vezes, de reorganizar a conversa: separar o que é decisão do que é histórico e dar espaço de tempo suficiente para que a reação inicial perca força antes de qualquer nova troca.

Em conclusão, Haroldo Augusto Filho comenta que sociedades que sobrevivem a esse tipo de atrito costumam ser aquelas em que os dois lados aprendem a reconhecer, cedo, quando uma discordância técnica está prestes a virar disputa pessoal, e agem para separar as duas coisas antes que se misturem de vez.

 

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